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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

- o meu amigo é o meu amor.

Vê que o meu sorriso é verdadeiro
Meu coração está desperto
É sereno nosso amor e santo este lugar

Dos tempos de tristeza
Tive o tanto que era bom

Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar
Porque foi calma a tempestade
E tua lembrança, a minha estrela

Da alfazema fiz um bordado
Vem, meu amor
É hora de acordar
Tenho jasmim
Tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho um jardim e uma canção
Tenho o verão, tenho valor
Eu tenho um desejo e uma oração
Vivo feliz, tenho amor
E eu vou cantar uma canção pra mim
Vem que é hora de acordar...
Vê que a minha força é santa
Como foi santo o meu penar
Pecado é provocar desejo
E depois renunciar
Porque foi calma a tempestade
E tua lembrança, a minha estrela
Vê que o meu sorriso é verdadeiro
Meu coração está desperto
É sereno nosso amor e santo este lugar
Tenho jasmim, tenho hortelã
Eu tenho um anjo, eu tenho uma irmã
Com a saudade teci uma prece
E preparei erva-cidreira no café da manhã
(Celeste - Renato Russo e Marisa Monte)

P.S.: Para o meu pequeno-grande amor:
"Liberdade na vida é ter um amor pra se prender".
                                                     (F. Carpinejar)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

- pra demonstrar aquilo que sinto.

Sobre a tristeza:

Texto de Fabrício Carpinejar: 
"NÃO ESTOU ALEGRE, MAS NÃO É TRISTEZA".


- Você está triste hoje? 
- Não, estou bem. 
- Mas você está pensativo, com olhar distante. 
- É impressão 
- Não, eu o conheço. Você está triste hoje. O que foi? 
- Nada, juro, estou normal. E você não me conhece tanto quanto eu. 
- Viu? Já está mordendo! 
- Não, é que fica repetindo a mesma coisa. 
- Mas o seu normal é outro, mais confiante, mais alegre. 
- É teimosia sua, tudo certo, nada de diferente. 
- Não quer contar o que foi, entendo, mas você está triste hoje? 

A conversa à toa influencia e, ao mesmo tempo, irrita. Quando não estou alegre não significa que estou triste. É da natureza da alegria ser passagem. 

A amiga procura adivinhar o que não encontra. Atrás de um vestígio, cava o meu rosto, atravessando as rugas, a alergia do inverno e a barba mal-aparada. 

Se não estava triste, eu fico triste. Permanecia apenas concentrado. Mas de tanto ouvir a preocupação, entristeço. Duvido de mim no ato. Vou me espiar entre as unhas para ver se percebo carne firme para roer. Será que a paz é tristeza? A serenidade é tristeza? Ou porque há tristeza em observar longamente a paisagem sem se preocupar em voltar com as venezianas. Ou porque estava mesmo encabulado e não me permitia acreditar na mágoa. 

Não sei qual é mágoa, mas fiquei triste. Sou agora um triste sem tristeza. Que triste parecer triste quando não se é. Não pretendo ser triste sem motivo. Largo a urgência do trabalho para tentar encontrar a dor mais próxima, e sofrer novamente por ela. Vigoroso, contraio os lábios para resgatar uma ofensa e uma indiferença da última semana. Num próximo encontro, terei, ao menos, um motivo. 

Como é fácil se entristecer. Preste atenção. Não é só comigo que acontece, chegue para qualquer um e faça o interrogatório insistente. Dependendo do estado de espírito, o interlocutor - antes confiante e impassível - é capaz de chorar. 

Somos tristes adormecidos, tristes amansados. Quem não é triste relendo o jornal de ontem? Descascando o rótulo de uma garrafa? Quem não é triste aguardando um ônibus? Esperando um trem com o olhar vaporoso de dia terminando? Quem não é triste com as mãos no bolso? Ou partindo cedo ao serviço, nadando na cerração, sem adivinhar se terá sol em seguida ou um toldo de nuvens negras. 

A tristeza vem com a calma, é irmã da simplicidade. A tristeza vem com a sabedoria, é irmã da leitura. 

A tristeza permite revisar as gavetas e entortar as golas. Virar a cadeira encharcada com lentidão. Recupera o que esquecemos de cuidar. A tristeza nos empurra a colocar datas nas fotografias, a alinhar em ordem crescente os amores extraviados, a revisar os canhotos dos cheques abertos, a imaginar as alegrias que ainda não vieram. Nossa confiança não resiste aos questionamentos. Nossa confiança está acostumada a rebater com um oi, tudo bem e tchau. 

Somos tristes. Sempre tristes. Especialmente aquele que fez as perguntas.

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terça-feira, 24 de agosto de 2010

eu enlouqueço com uma mulher que mexe nos brincos no meio de uma conversa.

(...) eu enlouqueço com mulher que mexe os brincos no meio de uma conversa. Há um desinteresse charmoso nesta atitude. Quase um desprezo desafiador. Redobro as gentilezas. Ofereço o que ela não ousou pedir. Sinto que vou perdê-la no próximo instante, que algo que lembrou supera a minha voz.

Para me torturar, ela vira o pescoço sutilmente ao lado. Tal apresentadora atendendo a um ponto dos produtores. Não posso acusá-la de indiferença - mantém os olhos no meu rosto.

Comemoro sua sofisticação, a complexidade dissimulada. Concluo que esteja conversando com seus demônios. E que o demônio no ombro direito ameaça, bem desaforado:
- É sempre dia para o corpo. Vai, abraça esse canalha!

Já a percebo como uma feiticeira, uma bruxa, uma doida, que está definindo sua vida tocando as curvas do lóbulo. É o detalhe que decide. O detalhe conspira, inunda, confunde. Ela diz sim a partir dos ouvidos mais do que da boca. O ouvido tem que gostar de mim.

(Fabrício Carpinejar - O que o homem deveria enxergar)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Se alguém me achar, me devolva.

Sou tão afoita
que (nem) uma vírgula me desintegra.
Sou desarvorada
extraio versos dos escapes,
sou diversas
procuro ondes (às vezes odes),
conheço a mordedura dos acenos,
antecipo inflamações.
Mas sei que Deus está no perigo e eu
eu preciso de falhas.
Preciso da tinta descascada,
da aspereza que esqueceram de polir,
do defeito que fugiu aos olhos.
Antes o risco,
antes a inquietação e suas agulhas
do que amarrar-se à permanência
e murchar-se.
Antes o precipício
do que a clausura
entre paredes com olhos
quando estamos nus.
Antes ser cortada,
jogada aos pedaços no caldeirão do tempo,
amolecer na sua cozedura,
inchar-me de idades,
corar de amplitude
do que saber-me remota por imobilidade
e dura e seca por ignorância.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ah, baby, please!


Reclama de mim, como se houvesse possibilidade...
De me inventar de novo!
(Fabrício Carpinejar)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A vida amou a morte
mais do que havia
para morrer.
.
.
(Fabríco Carpinejar)

terça-feira, 23 de junho de 2009

Vontade de respirar...




"Poesia não é um crime premeditado, em que o escritor forja álibis e procura esconder as pistas. Não sou capaz de dizer: vou escrever um poema. Escrevo como quem existe. Ninguém hesita em existir. Percebo a poesia desde o princípio como um crime passional. É uma explosão de nervos, de música e de pensamento. Surge de um ato solitário, intransferível e altamente singular. Significa matar o amor para que ele sobreviva sem a pieguice. Desbastar o poema para que só fique o essencial. O verso é como uma escultura: o rosto está lá dentro, sendo preciso descobri-lo extraindo pedra. Há quem pense que o texto poético se faz derramando sentimentos no papel, inflamando o ego da namorada, chantageando os amigos com loas, descrevendo as belezas do mundo, com aquela pelúcia própria da hibernação dos ursos (e que só dá alergia!), registrando nossos melhores momentos no diário. É justamente o contrário: não é desabafo, poesia revela a realidade sem intermediários e filtros, uma comoção psíquica, nunca servindo para maquiar ou obscurecer o cotidiano, mas para apanhar os detalhes e as distrações que tornam o leitor mais verdadeiro e intenso. Explicaram ao jovem que versos servem para o deslumbramento, quando eles estão interessados em encontrar algo que expresse sua inquietude civil e o vigor de seus desejos. Na verdade, ensinaram ao adolescente a não gostar de poesia, porque a apresentaram tão fraturada e deslocada do seu mundo, que ele foi tirar suas fotografias 3X4 nas letras da música popular brasileira. Ninguém avisou que o poema pode ter uma história, um enredo, um suspense, uma indignação. Apesar de todo modernismo, pós-modernismo e hiperatividade textual, ainda predomina uma visão romântica do gênero, que não condiz com a aventura das diferenças que a palavra propõe. Falta rigorosamente na poesia um meio-termo entre o popular e o erudito, entre a realidade e o imaginário. Falta uma linguagem que testemunhe e critique nosso tempo, capaz de dar uma função coletiva às descobertas pessoais. Que não seja reduzida a trocadilhos publicitários ou a academicismos de dicionaristas de plantão. A raiz amarga do problema reside na ausência de orientação. Por que a poesia não está/comparece como criação na sala de aula, ficando restrita à leitura avulsa de clássicos e bambas do vestibular? Escrever é ler em dobro". (Fabrício Carpinejar - Publicado no Diário de Sta Maria - RS)


As pessoas nos tolhem. Fato. Em vários aspectos, inclusive... atendo-me ao propósito do texto acima: fui tolhida nisso também. Letras, 1º dia de aula, fala do professor de Teoria Literária:

"- Quem vocês pensam que são? Se vocês pensam que escrevem, esqueçam. Tudo aquilo que vocês já escreveram é nada. Vocês são nada". Forte, vindo de alguém que deveria encorajar a escrita... Pois é... Mas, hoje eu digo: "- Veremos". Ultimamente senti vontade de respirar livremente... Esse blog foi criado na tentativa de fazer isso: expressar, versejar e VerSerJá. Se você sente isso, essa vontade de respirar, expresse-se, de qualquer forma que seja: escreva, grite, cante, dance. Não importa. Esse é o seu momento. É a sua saída, escapatória dessa obstrução imposta. Meta a cara e aceite as consequências, que serão boas e ruins. Mas se você não consegue respirar no momento, não se preocupe. Não se sinta forçado(a), faça quando se sentir à vontade, pois esse é o objetivo: sentir-se LIVRE pra respirar.




- Pra pedir silêncio eu berro... pra fazer barulho, eu mesma faço .•°