quinta-feira, 3 de setembro de 2009

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Não choro mais.
Na verdade, nem sequer entendo porque digo mais,
se não estou certo se alguma vez chorei.
Acho que sim, um dia. Quando havia dor.
Agora só resta uma coisa seca.
Dentro, fora.
(Caio Fernando Abreu)
.Céu.

terça-feira, 1 de setembro de 2009


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A coisa nenhuma deveria ser dado um nome, pois há perigo de que esse nome a transforme.
(Virginia Woolf)


O pássaro fugiu, ficaram-me as penas
da sua asa, nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.
Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glórias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.

A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!

Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.

(Cassiano Ricardo)

Tudo é dor.

Por que esperar se podemos começar tudo de novo?
Agora mesmo.

A humanidade é desumana.
Mais ainda temos chances.



Até bem pouco tempo atrás
Poderíamos mudar o mundo
Quem roubou nossa coragem?

Tudo é dor.



E toda dor vem do desejo de não sentirmos dor.


(Renato Russo - Quando o sol bater na janela do seu quarto)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Pierrot, cacete, vai tomar sorvete com o Arlequim!!



-Quem é você?

- Adivinha se gosta de mim

Hoje os dois mascarados procuram os seus namorados perguntando assim:

- Quem é você, diga logo...

- ...que eu quero saber o seu jogo

- ...que eu quero morrer no seu bloco...

- ...que eu quero me arder no seu fogo

- Eu sou seresteiro, poeta e cantor

- O meu tempo inteiro, só zombo do amor

- Eu tenho um pandeiro

- Só quero um violão

- Eu nado em dinheiro

- Não tenho um tostão...Fui porta-estandarte,

não sei mais dançar

- Eu, modéstia à parte, nasci prá sambar

- Eu sou tão menina

- Meu tempo passou

- Eu sou colombina

- Eu sou pierrô

Mas é carnaval, não me diga mais quem é você

Amanhã tudo volta ao normal

Deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar

Que hoje eu sou da maneira que você me quer

O que você pedir eu lhe dou

Seja você quem for, seja o que Deus quiser
(Chico Buarque)

Cansada das canseiras desta vida.

O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.



A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas
Essas e o que falta nelas eternamente
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.


Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...



E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço.


Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...
(Álvaro de Campos)
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"O professor disserta sobre ponto difícil do programa.
Um aluno dorme,
Cansado das canseiras desta vida.
O professor vai sacudí-lo?
Vai repreendê-lo?
Não.
O professor baixa a voz,
Com medo de acordá-lo".
(Carlos Drummond de Andrade)