Mostrando postagens com marcador Arnaldo Antunes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Arnaldo Antunes. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de julho de 2009


Caligrafia.

Arte do desenho manual das letras e palavras.

Território híbrido entre os códigos verbal e visual.

— O que se vê contagia o que se lê.

Das inscrições rupestres pré-históricas às vanguardas artísticas do século XX.

Sofisticadamente desenvolvida durante milênios pelas tradições chinesa, japonesa, egípcia, árabe.

Com lápis, pena, pincel, caneta, mouse ou raio laser.

— O que se vê transforma o que se lê.

A caligrafia está para a escrita como a voz está para a fala.

A cor, o comprimento e espessura das linhas, a curvatura, a disposição espacial, a velocidade, o ângulo de inclinação dos traços da escrita correspondem a timbre, ritmo, tom, cadência, melodia do discurso falado.

Entonação gráfica.

Tais recursos constituem uma linguagem que associa características construtivistas (organização gráfica das palavras na página) a uma intuição orgânica, orientada pelos impulsos do corpo que a produz.

Assim como a voz apresenta a efetivação física do discurso (o ar nos pulmões, a contração do abdómen, a vibração das cordas vocais, os movimentos da língua), a caligrafia também está intimamente ligada ao corpo, pois carrega em si os sinais de maior força ou delicadeza, rapidez ou lentidão, brutalidade ou leveza do momento de sua feitura.

A irregularidade do traço denuncia o tremor da mão. O arco de abertura do braço fica subentendido na curva da linha. O escorrido da tinta e a forma de sua aborção pelo papel indicam velocidade. A variação da espessura do traço marca a pressão imprimida contra o papel. As gotas de tinta assinalam a indecisão ou precipitação do pincel no ar.

Rastos de gestos.

A própria existência de um saber como o da grafologia, independentemente de sua finalidade interpretativa sobre a personalidade de quem escreve, aponta para a relevância que podem ter os aspectos formais que, muitas vezes inconscientemente, constituem a "letra" de uma pessoa.

O atrito entre o o sentido convencional das palavras (tal como estão no dicionário) e as características expressivas da escritura manual abre um campo de experimentação poética que multiplica as camadas de significação.

Além disso, suas linhas, curvas, texturas, traços, manchas e borrões, mesmo que ilegíveis, ou apenas semi-decifráveis, podem produzir sugestões de sentidos que ocorrem independentemente do que se está escrevendo, apenas pelo fato de utilizarem os sinais próprios da escrita.

O A grávido de O.

Érres e ésses atacando Es.

A multiplicação de agás.

Rios de Us e emes e zês.

Esqueletos de signos fragmentados.

Dança de letras sobrepostas possibilitando diferentes leituras.

Paisagens.

Horizontes ou abismos.


.

.

(Arnaldo Antunes - Sobre a caligrafia)


Abril despedaçado.

(Arnaldo Antunes - 2 ou + corpos no mesmo lugar)



Embora a porta estivesse fechada ela sabia que algo adentraria ali a qualquer momento. Não era fácil conter o ritmo acelerado daquele coração esmigalhado. Havia ali uma ânsia, uma espera e uma expectativa. Triste expectativa de achar que nada daria certo. Olhos cerrados, silêncio. Aquela saudade que martelava-a a cabeça dia após dia. Saudade de uma coisa que não sabia dizer o que era. Era como se naquele mês ela tivesse reencontrad0 algo pelo que estava esperando há tempos.

Havia um calor. E era como se ela estivesse esperando por aquele calor há tanto tempo que o medo de não senti-lo de fato a apavorava! O pavor era tamanho que ela só conseguia repelir aquele calor - embora ela soubesse que aquilo ali era o que ela sempre esperou. Coragem, dizia ela à si mesma.

Abril despedaçado. Foi no que ela pensou. Esse mês, para ela, vinha sendo sendo despedaçado por 02 anos seguidos. NÃO! NÃo. Não. não. Ela não permitiria que, por mais um ano, esse mês fosse despedaçado. Tirou coragem não sabe, ainda hoje, de onde...





... e abriu a porta.




Pronto. Agora cabe à ele - ao calor - adentrar ou não na ante-sala de portas completamente abertas - pensou ela.

agouro agouro


agora


agouro agouro


Ele adentrou. Primeiramente na ante-sala... ainda meio que na dúvida se tirava ou não os sapatos para deixá-los à porta a fim de não fazer sujeira e também sentir-se mais confortável. Um pé dentro. Um pé fora. Pronto... Sapatos tirados. Colocados ali no cantinho. Segundo ele, para que seja mais difícil de se encontrar no caso de bater uma vontade desenfreada de sair correndo. Uma vez que ele tenha que procurar por seus calçados, dará tempo de parar e pensar um pouco. E isso é bom. É, é o melhor a se fazer: deixar os calçados no cantinho. Foi um pensamento sábio esse, pois com essa segurança ele pôde adentrar, em seguida, na sala propriamente dita. E assim se instalou. E abriU. Não despedaçou.
.
01/07/2009 11h10