Tinha de ir andando, disse ele, erguendo-se. Mas parou, como se fosse dizer alguma coisa; e ela indagava consigo qual a causa. Pois não estavam ali as rosas? (...)
Há uma dignidade nas pessoas; uma solidão; até entre marido e mulher, um abismo; mas que se devia respeitar, pensou Clarissa, vendo-o abrir a porta; pois não se podia renunciar a isto, ou denegá-lo a um marido, contra a vontade deste, sem perder a própria independência, o respeito próprio; algo que não tem preço, em suma. (...)
Mas...mas por que se sentia de súbito, por alguma coisa que não podia tinar, desesperadamente infeliz? como alguém que houvesse perdido uma pérola ou um diamante na relva e separa cuidadosamente as hastes, aqui, acolá, e busca em vão cavando afinal até as raizes, assim examinou Clarissa uma coisa e outra; não, não era por Sally Seton haver dito que Richard nunca entraria no Gabinete, por ter cérebro de segunda ordem (recordava-o agora); não, isso não lhe importava; nem por causa de Elisabeth e Doris Kilman; tudo isso eram fatos. O que havia era um sentimento, algum desagradável sentimento, experimentado talvez pela manhã; alguma coisa que Piter dissera, de mistura com certa predisposição sua, no quarto, ao tirar o chapéu; e também o que Richard dissera havia agravado aquilo...mas que dissera ele? Trouxera-lhe as rosas. As suas recepções! Era aquilo! Ambos a tinham criticado, tinham zombado injustamente dela, por causa das suas recepções. Era aquilo! Era aquilo!
Bem, como iria ela defender-se?
(trecho de Miss Dalloway)