quarta-feira, 29 de setembro de 2010

- pra demonstrar aquilo que sinto.

Sobre a tristeza:

Texto de Fabrício Carpinejar: 
"NÃO ESTOU ALEGRE, MAS NÃO É TRISTEZA".


- Você está triste hoje? 
- Não, estou bem. 
- Mas você está pensativo, com olhar distante. 
- É impressão 
- Não, eu o conheço. Você está triste hoje. O que foi? 
- Nada, juro, estou normal. E você não me conhece tanto quanto eu. 
- Viu? Já está mordendo! 
- Não, é que fica repetindo a mesma coisa. 
- Mas o seu normal é outro, mais confiante, mais alegre. 
- É teimosia sua, tudo certo, nada de diferente. 
- Não quer contar o que foi, entendo, mas você está triste hoje? 

A conversa à toa influencia e, ao mesmo tempo, irrita. Quando não estou alegre não significa que estou triste. É da natureza da alegria ser passagem. 

A amiga procura adivinhar o que não encontra. Atrás de um vestígio, cava o meu rosto, atravessando as rugas, a alergia do inverno e a barba mal-aparada. 

Se não estava triste, eu fico triste. Permanecia apenas concentrado. Mas de tanto ouvir a preocupação, entristeço. Duvido de mim no ato. Vou me espiar entre as unhas para ver se percebo carne firme para roer. Será que a paz é tristeza? A serenidade é tristeza? Ou porque há tristeza em observar longamente a paisagem sem se preocupar em voltar com as venezianas. Ou porque estava mesmo encabulado e não me permitia acreditar na mágoa. 

Não sei qual é mágoa, mas fiquei triste. Sou agora um triste sem tristeza. Que triste parecer triste quando não se é. Não pretendo ser triste sem motivo. Largo a urgência do trabalho para tentar encontrar a dor mais próxima, e sofrer novamente por ela. Vigoroso, contraio os lábios para resgatar uma ofensa e uma indiferença da última semana. Num próximo encontro, terei, ao menos, um motivo. 

Como é fácil se entristecer. Preste atenção. Não é só comigo que acontece, chegue para qualquer um e faça o interrogatório insistente. Dependendo do estado de espírito, o interlocutor - antes confiante e impassível - é capaz de chorar. 

Somos tristes adormecidos, tristes amansados. Quem não é triste relendo o jornal de ontem? Descascando o rótulo de uma garrafa? Quem não é triste aguardando um ônibus? Esperando um trem com o olhar vaporoso de dia terminando? Quem não é triste com as mãos no bolso? Ou partindo cedo ao serviço, nadando na cerração, sem adivinhar se terá sol em seguida ou um toldo de nuvens negras. 

A tristeza vem com a calma, é irmã da simplicidade. A tristeza vem com a sabedoria, é irmã da leitura. 

A tristeza permite revisar as gavetas e entortar as golas. Virar a cadeira encharcada com lentidão. Recupera o que esquecemos de cuidar. A tristeza nos empurra a colocar datas nas fotografias, a alinhar em ordem crescente os amores extraviados, a revisar os canhotos dos cheques abertos, a imaginar as alegrias que ainda não vieram. Nossa confiança não resiste aos questionamentos. Nossa confiança está acostumada a rebater com um oi, tudo bem e tchau. 

Somos tristes. Sempre tristes. Especialmente aquele que fez as perguntas.

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