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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Se alguém me achar, me devolva.

Sou tão afoita
que (nem) uma vírgula me desintegra.
Sou desarvorada
extraio versos dos escapes,
sou diversas
procuro ondes (às vezes odes),
conheço a mordedura dos acenos,
antecipo inflamações.
Mas sei que Deus está no perigo e eu
eu preciso de falhas.
Preciso da tinta descascada,
da aspereza que esqueceram de polir,
do defeito que fugiu aos olhos.
Antes o risco,
antes a inquietação e suas agulhas
do que amarrar-se à permanência
e murchar-se.
Antes o precipício
do que a clausura
entre paredes com olhos
quando estamos nus.
Antes ser cortada,
jogada aos pedaços no caldeirão do tempo,
amolecer na sua cozedura,
inchar-me de idades,
corar de amplitude
do que saber-me remota por imobilidade
e dura e seca por ignorância.

sábado, 5 de junho de 2010

Salamandra



Depois do ímpeto das labaredas,
quando já se distancia o tropel de raios,
entre sílabas carbonizadas
e vogais expostas ao extravio dos vapores;
recolho em meu corpo,
clareira de oscilações,
um resto de palavras retorcidas.
A tua alma de sal
levita sobre estes versos.
Ela tem a recorrência de um fantasma sem reza.
Reuno a doçura ainda possível em mim,
empilho parábolas,
componho nevoeiros,
tracejo ideogramas com cinza
para proteger teu nome
e para que as minhas mãos
não se embebam da tua cor,
sempre fugidia,
sempre na direção escancarada do abismo.

sexta-feira, 26 de junho de 2009


Ela tem a recorrência de um fantasma sem reza.
.
.
(Carmem Vasconcelos - Salamandra)