quarta-feira, 1 de julho de 2009

Abril despedaçado.

(Arnaldo Antunes - 2 ou + corpos no mesmo lugar)



Embora a porta estivesse fechada ela sabia que algo adentraria ali a qualquer momento. Não era fácil conter o ritmo acelerado daquele coração esmigalhado. Havia ali uma ânsia, uma espera e uma expectativa. Triste expectativa de achar que nada daria certo. Olhos cerrados, silêncio. Aquela saudade que martelava-a a cabeça dia após dia. Saudade de uma coisa que não sabia dizer o que era. Era como se naquele mês ela tivesse reencontrad0 algo pelo que estava esperando há tempos.

Havia um calor. E era como se ela estivesse esperando por aquele calor há tanto tempo que o medo de não senti-lo de fato a apavorava! O pavor era tamanho que ela só conseguia repelir aquele calor - embora ela soubesse que aquilo ali era o que ela sempre esperou. Coragem, dizia ela à si mesma.

Abril despedaçado. Foi no que ela pensou. Esse mês, para ela, vinha sendo sendo despedaçado por 02 anos seguidos. NÃO! NÃo. Não. não. Ela não permitiria que, por mais um ano, esse mês fosse despedaçado. Tirou coragem não sabe, ainda hoje, de onde...





... e abriu a porta.




Pronto. Agora cabe à ele - ao calor - adentrar ou não na ante-sala de portas completamente abertas - pensou ela.

agouro agouro


agora


agouro agouro


Ele adentrou. Primeiramente na ante-sala... ainda meio que na dúvida se tirava ou não os sapatos para deixá-los à porta a fim de não fazer sujeira e também sentir-se mais confortável. Um pé dentro. Um pé fora. Pronto... Sapatos tirados. Colocados ali no cantinho. Segundo ele, para que seja mais difícil de se encontrar no caso de bater uma vontade desenfreada de sair correndo. Uma vez que ele tenha que procurar por seus calçados, dará tempo de parar e pensar um pouco. E isso é bom. É, é o melhor a se fazer: deixar os calçados no cantinho. Foi um pensamento sábio esse, pois com essa segurança ele pôde adentrar, em seguida, na sala propriamente dita. E assim se instalou. E abriU. Não despedaçou.
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01/07/2009 11h10

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