sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Dedicado à Adélia Prado.

se eu não houvesse nascido
com essa maldita mania de escrever poemas
gostaria de ser viticultora
daquelas bem robustas
de pouca conversa
de muito labor
[pisar uvas
desenhar rótulos
fiscalizar tonéis
vender a safra]





e à noite
na minha poltrona
fazer meu crochê
ler a Bíblia
com aquela indescritível sensação de felicidade
que só as mulheres sentem
quando estão com as contas pagas
a casa limpa
e os filhos dormindo.

(Josie Mello)
Para melhor visualização:

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

.
Fiz minha casa no teu cangote
Não há neste mundo quem me bote
Pra sair daqui
(Céu - Cangote)

Agosto...


Suavemente Maio se insinua
Por entre os véus de Abril, o mês cruel
E lava o ar de anil, alegra a rua
Alumbra os astros e aproxima o céu.
Até a lua, a casta e branca lua
Esquecido o pudor, baixa o dossel
E em seu leito de plumas fica nua
A destilar seu luminoso mel.
Raia a aurora tão tímida e tão fragil
Que através do seu corpo transparente
Dir-se-ia poder-se ver o rosto
Carregado de inveja e de presságio
Dos irmãos Junho e Julho, friamente
Preparando as catástrofes de Agosto...
.
(Vinicius de Moraes)

(Wado - Amor e restos humanos)
Não diga que as estrelas estão mortas
Só porque o céu está nublado
Não se iluda: Pé que da fruta é o que mais leva pedra.
E uma raiz é uma flor que despreza a fama...
Olha lá vai passar o terceiro mundo
E quem é de ...
Vai chorar de ...
(Wado - Uma raiz, uma flor)
.

.
...pra mim, contudo, basta saber que embaixo do asfalto
Estão ali quietas, intactas, ocultas, as pedras
Aguardam o dia da convulsão final, o dia em que todos
Os paralelepípedos perdidos de granito reaparecerão...
(Wado - Tormenta)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009



Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.
(II)
.
.
(Hilda Hilst - Ode descontínua e remota para flauta e oboé. De Ariana para Dionísio)




terça-feira, 18 de agosto de 2009

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei.
E há um tempo
Entendo que sou terra.
Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu.
Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
(I)
(Hilda Hilst - Dez chamamentos ao amigo)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

“Porque não te retenho nunca, tenho-te firmemente!”

.
(Caco Xavier)